São corredores que parecem não ter fim.
Diz o Ventor que: «ao entrarmos no Grande Hall branquinho e sempre, ou quase sempre, pequeno para tanta gente, dali sai o grande corredor sempre branco e desde a manhãzinha sempre superlotado de gente. Lá no fundo, no seu topo, deparamos com uma parede branquinha e tomamos a direcção da direita ou da esquerda por entre pessoas apressadas ou lentas. Uns correm para o trabalho, outros à procura de resolver os problemas da sua frágil saúde e outros ainda a tentar solucionar todos os problemas com que os doentes se deparam e os levaram ali».
Depois, uns sobem pelos elevadores outros pelas escadas, conforme os vários destinos que os levam ao Grande Hospital, como em todos os outros hospitais. Diz o Ventor que só andou uma vez de elevador, fosse para o 3º, fosse para o 5º ou fosse para o 8º piso, ele subia as escadas, todos os dias (várias vezes por dia) à moda antiga, conforme a cadência dos seus companheiros de caminhada. Em passo lento ou apressado, degrau a degrau, ou saltando degraus alternadamente. Tu sim, tu não, tu sim, tu não ...
Foi no 3º, no 5º e no 8º pisos, que a "minha avó" foi tratada. Foi no 8º piso, enquanto o Ventor tentava saber da saúde da minha avó que morreu um historiador com quem o Ventor aprendeu a gostar da História. Oliveira Marques, por quem o Senhor da Esfera continuará a olhar.
Mas logo no primeiro dia que o Ventor entrou no grande Hospital, foi dar com um homem velhote, muito só, a falar na cabine telefónica para um amigo ou familiar: «vem ter comigo, vê se arranjas maneira de chegar aqui. Já escorreguei e caí na escada quando descia para ir beber um cafezinho, porque está muito frio, parti a cabeça e já me fizeram um penso».
O Ventor olhou a cabeça do velhote e tinha um penso. Metia dó a sua solidão e a tristeza com que apelava para obter companhia naqueles grandes corredores do desespero. Nos corredores brancos caminhavam de olhos esbogalhados e de papéis nas mãos muita gente que, tal como o velhote, caminhava esperançada de sair bem de toda aquela complicação. Por isso, o Ventor e eu pedimos para nunca deixarem os vossos doentes sós, e pior ainda quando velhotes, porque é uma tristeza vê-los perderem-se naquela triste realidade sem ajuda de alguém com quem se sintam seguros.
O Ventor contou-me que as suas piores caminhadas são aquelas que faz nos hospitais com as pessoas suas amigas e que ele sabe que estão mal, mas não sabe quanto. E isso deixa-o muito desanimado. Quando é com ele, sabe como se sente, cerra os dentes e vai à luta. «Faut-il morir ou vivre ...»
Mas os doentes são tantos no Grande Hospital que até mete dó! Uns choram, outros barafustam, outros dizem mal das pessoas que tudo fazem para os ajudar. É complicado ser-se pregador numa freguesia daquelas. A minha avó, por exemplo, embirrou com a senhora, auxiliar ou enfermeira, que lhe levantou as protecções laterais da cama, para ela não cair de noite. Dizia que não caía, que se sentia presa dentro de grades e que não as queria, mas a senhora não lhe ligou ... Fez queixa ao Ventor e ficou danada quando ele lhe disse que ela fez muito bem, ele faria o mesmo.
Mas eu escrevo aqui sobre os corredores do desespero de que o Ventor me fala, de coisas que vós já sabeis que são assim, mas o Ventor diz que não está correcto, o Sr. Ministro da Saúde (devia ser das Doenças) e seus sequases, levarem as guerras políticas para dentro dos hospitais. A saúde dos portugueses já anda tão mal que só faltava montar uma guerra entre as administrações hospitalares e todo o pessoal que trata da saúde dos nossos doentes.
Diz o Ventor que, se os incompetentes que governam a saúde dos portugueses, fossem mais honestos, fariam tudo para deixar o que está bem como está e corrigir o que está mal sem fazer autênticas guerras de tasqueiros. Desculpem meus senhores, mas o Ventor diz muito mais e eu acredito nele.
Por isso, o Ventor diz-me também e eu ponho aqui, que toda a gente que trabalha no grande Hospital é digna e merece o respeito de todos nós.
O Ventor disse-me para eu não nomear os médicos, as enfermeiras e o pessoal auxiliar que tratou da "minha avó" e de todas as outras doentes porque, por tudo o que viu, quer deixar a toda aquela gente votos de muitas felicidades nas suas vidas pessoais e profissionais e que continuem a desempenhar a sua actividade com o amor que sempre demonstraram estes dias, aos seus doentes.
O Ventor não queria mas, não os nomeando, eu deixo aqui o meu apreço de gato pelos médicos que trataram da "minha avó". O médico cirurgião, em quem reconhecemos um amigo, o médico anastesista, a médica brasileira, também uma amiga, e todos os outros. Eu sei que eles ficaram com as trinta e tal esmeraldas da "minha avó", mas o Ventor também não estava á espera de ficar rico! Foi a minha avó que fechou ontem a porta da Enfermaria que foi para obras.
Para todos os que trabalharam no "Projecto Esmeralda" para salvarem a "minha avó" de piores mazelas, os nossos agradecimentos e, ...
... para aqueles que trabalham no Grande Hospital, que o nosso amigo Apolo vos ilumine como ilumina os girassóis e que vocês se sintam bem sob os seus raios de luz como os girassóis se sentem após a lavagem de uma chuvada ao sentirem a carícia dos seus raios.

Se os governantes incompetentes (como referes) tomassem contacto directo com esta realidade, de certeza que fariam algo p a mudar.
ResponderEliminarQuico: o texto sobre os hospitais é duma realidade, até porque a realidade hoje no âmbito da saúde é deveras preocupante. Por isso, gostei do teu texto. Desejo bom fim-de-semana.
ResponderEliminarPois é Quico, por vezes é preciso abortar vs borregar , quando a aterragem em segurança se mostrar menos evidente. Quanto aos outros... grandes abortos andam por aí em cima de duas patas. Eu aceito o aborto legal mas em circunstâncias onde o médico diz que o ser que nascerá um dia, será deficiente. Com tanta desgraça que há não será difícil aceitar. Mas daí a "liberalizar", está-se mesmo a ver a seriedade dos fazedores de referendos abortos!!! Bom fim de semana.
ResponderEliminarOlá Quico! Estou estafada de andar à vossa procura e sem saber em que blog param nestes últimos dias. Este texto mostra bem a tristeza do ambiente hospitalar e o desinteresse da maioria das famílias pelo seus velhos. Tratam-nos com indiferença e depois esperam receber atenção dos seus filhos. Vai-se perdendo o carinho e o respeito pelos mais idosos. É triste.
ResponderEliminarUm beijinho grande
Quico querido,n estando eu a trabalhar no Hospital Grande, senti-me feliz com o que li. O apreço por quem luta pelo bem estar de quem necessita.Muita coisa há a fazer e aqui realço os termos humanos.A humanidade em q as pessoas são tratadas.Felizmente tem melhorado muito nestes últimos tempos.Mas ainda há muito a fazer.Pessoas que estão com mais de 60 anos,gastas pela profissão,com mais de 30 anos de carreira e ainda estão a lidar com doentes.N acho correcto.Todas as pessoas q lidam com a doença,têm um desgaste psicológico enorme.N é justo continuarem ao fim de 30 anos de serviço a lidarem directamente com os doentes.Essas pessoas já n conseguem ter o carinho,paciência e atenção q o doente merece.E ele acaba por pagar por isso.
ResponderEliminarAs cores dos corredores dos hospitais, tb já estão a mudar um pouco.Há serviços q optaram pelo azul céu. É muito mais reconfortante.
Quanto aos incompetentes q (des)governam este país, n têm conhecimento da realidade.
E sabes porquê? pq quando fazem visitas aso hospitais, avisam um mês antes q dia tal vão estar lá.É ver doentes a terem alta, é ver o serviço de urgência a despachar os utentes nesse dia,como nunca se viu. Só falta esconder os doentes e colocar vasos com flores. É o átrio de entrada da urgência q nunca é lavado,ser lavado à mangueirada nesse dia,é ver plantas pelos corredores. É ver um paraíso. Só teriam conhecimento real das coisas se aparecessem de surpresa.
Ai Quico, pede desculpa ao Ventor.Mas sabes,eu em questões de saúde sou uma tagarela.Pelas injustiças q vejo diariamente e por muita coisa q tu nem imaginas.
Bjos grandes para ti meu gatinho lindo, para o Ventor, avó "Esmeralda", a tua dona e todos os teus amigos
Um doce fim de semana
Aulá aumigo!
ResponderEliminarComo está...será que ainda se lembra desse seu amigo??
Passando para ver as novidades e ter nsoticias..ja que estive um tempo sumido..
Aubraços
Lucky Martin
Olá, Lucky!
ResponderEliminarFiz duas tentativas e não consegui comentar. Tentarei mais tarde. Algo está mal do lado de cá ou do lado de lá. Voltarei mais logo a ver se consigo.
Olá :)
ResponderEliminarParabéns pelo Blog. Merece ser destacado (aqui: http://blogs.sapo.pt/destaques.bml).
Boa continuação.
Bom Dia Quico.
ResponderEliminarParabéns pelo destaque nos blogs do sapo.
Bem merecido.
Um beijinho para ti e para o Ventor e boa semana.
Olá Quico,
ResponderEliminarDesejo-te uma boa semana :)